domingo, 8 de novembro de 2015

Os milhões e as migalhas

Chiko Kuneski

Escrevi pela primeira vez uma crônica pelo título. Acho que estou deixando de ser jornalista para viver de economia. Ou de economias.

O locutor foi categórico: “o segundo lugar no brasileirão vale R$ 6 milhões”. E continuou... “o terceiro lugar R$ 4 milhões”. Não falou do campeão (prêmio de R$ 10 milhões).

Meus meros reais suados no dia-a-dia para comprar um ingresso e ir a campo, ou adquirir o direito de ver e ouvir tudo isso “por tubo”, são insignificantes. O torcedor nada mais importa. O jogador é para se expor, se exportar, se importar ou se deportar. O torcedor para pagar.

Somos brasileiros, torcedores , cada um com suas cores, com suas alegrias, alegorias e suas dores, os milhões que viraram milhões.  O futebol virou negócio. Negociável. Não é mais a conquista. A medalha. A marca no peito. O qualitativo é quantitativo.


A glória da conquista está no banco. Nos bancos fora de campo. A firula é contábil. O drible jurídico. O passe pagável. Já falta “pão e circo” nas modernas arenas. Nada mais é de graça. A desgraça chegou ao seu limite: do orgulho desfeito. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O “walking dead” cibernético

Sou um zumbi
Com face
No face
Arrasto-me
Madrugando
Olheiro
De olheiras
Na face
Um morto
Vivo
Atrás de cérebros
Faminto
Cada vez mais
Arrasto-me
Vazio


CK

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

José, Maria e as “madalenas"

Chiko Kuneski

O ex-presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), José Maria (seria algo sem gênero precoce?) Marin, preso na Suíça por corrupção na FIFA, essa dispensa explicações do que representa,  e extraditado para os Estados Unidos, alegou perante um juiz de Nova Iorque inocência. Concordo com o genérico. Também compartilho da máxima do direito universal de que “todos são inocentes até que se prove e sejam julgados culpados”.

A qualquer cidadão deve ser dado o pleno direito à defesa. Não podemos condenar pela imprensa sensacionalista. Não podemos apedrejar “marias madalenas”, por mera incitação do clamor midiático.

Até “josé”, humano, confuso com o milagre, subjugou-se às forças supremas e as aceitou. “Maria” foi a escolha. “José” achou conveniente acreditar no milagre da fácil multiplicação. O poder supremo tudo proveria. Absolveria. O poder supremo era intocável. Perfeito para José Maria.


José Maria Marin é inocente até que um juiz, ou jure terreno, o julgue culpado. Vai responder em liberdade, comprada por meros 15 milhões de dólares (mais de 55 milhões de reais) de fiança. Pelo menos o poder supremo até agora lhe proveu.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O jogo na mesa

Chiko Kuneski

- Não sei se notou, mas o pé esquerdo da mesa está torto.
- Que é isso dr. Conheço meu ofício. A mesa tá plana.
- Não preciso ser marceneiro para saber que o pé esquerdo está torto.
- Deve ser seu óculos, dr!
- Sem eles acho que está ainda mais torto. Aliás, desalinhado.
- Que é isso? Tenho experiência.
- Eu tenho olhar crítico. O pé esquerdo está torno.
- Dr., comecei por baixo. Humilde. Aprendi. Cortei. Lixei . Torneei. Aprendi a montar na prática.
- Mas o pé esquerdo da mesa está torto!
- Pois é isso, dr.! O senhor pensa que sabe demais. Estuda. Se entranha em livros. Assiste jogos na televisão. Pensa que o que enxerga é o correto. Eu não! Sou humilde. Aprendi na prática. A mesa está reta.
- Podes ter razão. Mas te faço um desavio!
- Dr., a vida me mostrou que os humildes tem sempre que provar algo para alguém. Aceito.
- Ótimo! A vida também me ensinou a enfrentar desafios.
- Não parece, dr.
- Aceitas ou não?
- Vou provar que o dr.  está errado!
- Prove. Mas vamos jogar uma partida de futebol de botão na mesa que construíste.
- Conheço o campo, dr.

- Mas o teu ataque começa jogando pela esquerda.

domingo, 13 de setembro de 2015

Desabafo

 
Cansei de lutar por outros

Que nem mesmo lutam

Cansei da luta d’ doutros

Que não labutam

Suas próprias lutas

Sobrevivem, se autoindultam

Meros zumbis sociais

Empurrando-me suas multas

Com dores medíocres morais

Casei, exausto do puro correto

Voltei, armado em mim mesmo

Cansei de acreditar no esmo

Solidifiquei, feito seco concreto

Anacrônico e incorreto

Renasci

CK

domingo, 16 de agosto de 2015

Conjugando a democracia


Eu fui às ruas

Tu foste às ruas

Ele foi às ruas

Nós fomos às ruas

E o governo?

Sujeito indeterminado,

Permaneceu encastelado

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Viramos #guiados

O Brasil está vivendo um conceito de democracia novo, mas conquistado. O do pleno exercício de falar. Ir às ruas, defender pontos de vistas políticos e ideológicos. Ao mesmo tempo, vem o contra-ataque, fazendo o país passar por uma surda guerra virtual. Existe uma disputa ideológica nas redes sociais. Silenciosa. Às vezes despercebida. #guiam o cidadão.

As ferramentas cibernéticas para aglutinar estão sendo usadas para batalhas político-ideológicas, onde o falso torna-se verdadeiro. No Brasil atual desumanizou-se a face (o face). Calou-se o conceito do canto do pássaro (twitter).

O país passa por uma guerra invisível, para defender pontos de vistas e ideologias palpáveis, comandada por robôs cibernéticos. Invisíveis e completamente anônimos.  Os “hashtgs” criados pelas hostes da política cibernética iludem, mascaram, praticam falsidades ideológicas. São programados e bem executados por robôs da Internet. Inventados por “robôs humanos”, soldados partidários.

Os números robotizados dos “hashtgs” viram pessoas reias nas contas divulgadas. A repetição maquinal e maquinada assume a vontade do cidadão, como se falasse por ele. Mente, sem que se saiba. Desmente, sem que se saiba. Viraram “pílulas da felicidade”.

Nós, os usuários das redes sociais, acabamos meros personagens de George Orweel num 1984 #guiados.

terça-feira, 7 de abril de 2015

O ódio está em que fala; não quem ouve


A nova propaganda política do Partido dos Trabalhadores (PT) veiculada na televisão começa com uma máxima: “tem gente que odeia PT”.


Não odeio partidos. Abomino mentiras repetidas.

O “drops televisivo” diz que há quem seja contra o PT porque melhorou a vida do pobre e isso “enfurece” o rico. Vende um país de conquistas econômicas, quando a inflação está alta e corrompe até o parco dinheiro que o trabalhador colocou na caderneta de poupança.

Hoje os rendimentos da poupança são consumindo pela inflação alta e, indistintamente, pobres e ricos, perdem. Mais os pobres. Até mesmo com as maiores taxas de juros praticadas nos últimos anos.

Direitos históricos dos trabalhadores como o seguro desemprego, auxílio doença e pensões por morte são suprimidos ou reduzidos. O pobre é punido duas vezes: ao perder o emprego e ainda não poder contar com o amparo das contribuições ao sistema que fez por uma vida.

Diz o apelo televisivo que nunca tantos corruptos estão atrás das grades, mas omite propositalmente que a maioria está ligada a esquemas do partido para financiar campanhas.

Prega conquistas pelo acesso às universidades, mas esconde que milhares desses estudantes terão que abandonar sua qualificação por má gerência nos programas de financiamento educacional, assumido até pela presidente em pronunciamento.

Não dissemino o ódio. Ao contrário; sou democrático e sempre a favor do diálogo. Quem usa ódio como uma couraça de oprimido o faz propositalmente para refratá-lo contra os que discordam do seu modo de pensar e agir.

O ódio vem mais de quem fala dele do que de quem, democraticamente, ouve.

terça-feira, 10 de março de 2015

Sou classe média, branco, urbano e cidadão. Tenho o direito de protestar!


Por Chiko Kuneski

Desde a campanha presidencial para a reeleição de Dilma o marqueteiro do “partido da estrela” criou um conceito de ódio, disseminado amplamente nas redes sociais, que dividiu o Brasil. Criaram a inverdade dos ricos com ódio dos pobres, dos brancos contra os negros, da burguesia (sic) antagônica crônica dos trabalhadores. Com seu conceito “odioso” o marketing petista imputou a quem lhe faz oposição um ódio que vem de suas hostes contra a coragem de discordar de seu pensamento hegemônico.


Assumo. Sou classe média, branco e urbano (não burguês, pois não vivo nos burgos europeus dos séculos XI e XII), mas, acima de tudo, um cidadão brasileiro que tem, democraticamente, o direito e até o dever, de se manifestar e protestar quando está sendo lesado e atacado pela corrupção e pelo desgoverno.

 
Fui às ruas contra a ditadura e a favor das DIRETAS JÀ, querendo a plena democracia e o direito de livre expressão. Estava na luta pelo impedimento do presidente Fernando Collor de Mello, que é bom lembrar os petistas apoiaram, mas que agora como Senador faz parte da base aliada de Dilma. Exigi e exijo, como brasileiro, o fim da corrupção política no país, em todos os âmbitos.


Em todas essas manifestações defendendo a DEMOCRACIA fui, como sou, classe média, branco e urbano, um cidadão útil, mas agora querem me transformar num golpista por pensar diferente e discordar do totalitarismo da estrela.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Narrativa sem sentido de um mundo em decomposição

Estilo Bukowski

Meu celular vibrou, intenso
Depois tocou, estridente
Mas o celular não é meu
Apenas comprei e dei-lho
Quem ganhou o presente gritou, estridente
Acho mesmo que entre dentes
- “é contigo"!
Mas não era comigo
Do outro lado da linha uma voz feminina
Afável, me saúda com um
- “tudo joia”?
Não era joia, nem diamante, era falso brilhante
Verborreicamente, sem deixar minha mente respirar
A voz feminina está alegre com minha sorte
Logo eu um azarado
Alerta que fui sorteado.
Mas, sempre tem um porém na vida do azarado
Para ter a sorte tinha que pagar por ela
Bastava recarregar meus créditos, para ganhar
Mais créditos.
Minha vida sempre foi de débitos
Reneguei
Educadamente desconversei e declinei da sorte
Insistência
A voz feminina não aceitou minha resistência
Acreditei mais no meu azar que na minha sorte
Neguei
A voz feminina passou de doce a ousada
Inconveniência
Agitada, vociferou:
- “se não quer é que é burro e não sabe fazer conta”
De certo modo a voz feminina no celular
Descobriu que não sou bom em contas
Prefiro meus contos.
CK

domingo, 18 de janeiro de 2015

O justo julgamento


Faz tempo procuro uma metáfora para a decisão por pênaltis num jogo de futebol. Talvez seja julgamento. Um julgamento sem jure, sem árbitros. Um ato único onde promotor e defensor se confrontam na mesma defesa. Da euforia.

É um ritual que julga sem provas. Apenas se atenta às destrezas. Do promotor que vai impor sua tese à bola, tentando que ela convença a rede. Do outro lado, o defensor, que conversa com a bola ao pé do ouvido, procurando demover seu ímpeto, impiedoso, de convencer a rede com as astúcias do promotor.

Um jogo de astúcias que começa no lento caminhar do cobrador, o promotor, e da paciência do goleiro, o defensor. Um caminha pensando como vai convencer a bola a seu favor, passo por passo, do meio do campo até o púlpito da cobrança do pênalti. O outro, apenas observa a caminhada e tenta entender quais argumentos serão usados para convencer a bola. Ele, às vezes, até conversa com as traves. Mas elas não julgam.

 No movimento dos corpos. Nos olhos nos olhos. Nas faces. Cobrador, promotor, e goleiro, defensor, se estudam. Não falam. Não precisam convencer jurados. A sentença será dada pela bola.

A bola é a verdadeira juíza que vai exprimir a decisão do julgamento decisivo. Somente a bola. Cabe ao promotor e ao defensor convencerem-na.

 CK

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Pigmentos



Meus olhos lacrimejam

Mas não estou triste;

Inversamente

Meus olhos lacrimejam

Pela luz,

Pelo azul, horizontal

Meus olhos lacrimejam

Feridos por mistura de cores

O azul do céu acinzenta

Opaca o verdejar acastanhado

Meus olhos lacrimejam

Lágrimas transparentes