quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Narrativa sem sentido de um mundo em decomposição

Estilo Bukowski

Meu celular vibrou, intenso
Depois tocou, estridente
Mas o celular não é meu
Apenas comprei e dei-lho
Quem ganhou o presente gritou, estridente
Acho mesmo que entre dentes
- “é contigo"!
Mas não era comigo
Do outro lado da linha uma voz feminina
Afável, me saúda com um
- “tudo joia”?
Não era joia, nem diamante, era falso brilhante
Verborreicamente, sem deixar minha mente respirar
A voz feminina está alegre com minha sorte
Logo eu um azarado
Alerta que fui sorteado.
Mas, sempre tem um porém na vida do azarado
Para ter a sorte tinha que pagar por ela
Bastava recarregar meus créditos, para ganhar
Mais créditos.
Minha vida sempre foi de débitos
Reneguei
Educadamente desconversei e declinei da sorte
Insistência
A voz feminina não aceitou minha resistência
Acreditei mais no meu azar que na minha sorte
Neguei
A voz feminina passou de doce a ousada
Inconveniência
Agitada, vociferou:
- “se não quer é que é burro e não sabe fazer conta”
De certo modo a voz feminina no celular
Descobriu que não sou bom em contas
Prefiro meus contos.
CK

domingo, 18 de janeiro de 2015

O justo julgamento


Faz tempo procuro uma metáfora para a decisão por pênaltis num jogo de futebol. Talvez seja julgamento. Um julgamento sem jure, sem árbitros. Um ato único onde promotor e defensor se confrontam na mesma defesa. Da euforia.

É um ritual que julga sem provas. Apenas se atenta às destrezas. Do promotor que vai impor sua tese à bola, tentando que ela convença a rede. Do outro lado, o defensor, que conversa com a bola ao pé do ouvido, procurando demover seu ímpeto, impiedoso, de convencer a rede com as astúcias do promotor.

Um jogo de astúcias que começa no lento caminhar do cobrador, o promotor, e da paciência do goleiro, o defensor. Um caminha pensando como vai convencer a bola a seu favor, passo por passo, do meio do campo até o púlpito da cobrança do pênalti. O outro, apenas observa a caminhada e tenta entender quais argumentos serão usados para convencer a bola. Ele, às vezes, até conversa com as traves. Mas elas não julgam.

 No movimento dos corpos. Nos olhos nos olhos. Nas faces. Cobrador, promotor, e goleiro, defensor, se estudam. Não falam. Não precisam convencer jurados. A sentença será dada pela bola.

A bola é a verdadeira juíza que vai exprimir a decisão do julgamento decisivo. Somente a bola. Cabe ao promotor e ao defensor convencerem-na.

 CK

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Pigmentos



Meus olhos lacrimejam

Mas não estou triste;

Inversamente

Meus olhos lacrimejam

Pela luz,

Pelo azul, horizontal

Meus olhos lacrimejam

Feridos por mistura de cores

O azul do céu acinzenta

Opaca o verdejar acastanhado

Meus olhos lacrimejam

Lágrimas transparentes

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A perereca é da vizinha



Pode comentar quem gosta de perereca. Calma. Não ruborize. Nada de ter pensamentos libidinosos, pois a perereca em questão é um animal, mais precisamente um “anuro” que habita matas, até jardins e acasala no verão.

Ao contrário do que se pensa, perereca não é hermafrodita; como a minhoca. Existe o anfíbio macho, indispensável para a procriação da espécie, que não exige ser chamado de o “perereco”. Ao contrário da presidente que insiste em ser "presidenta". Mas, o assunto não é política.

O tema principal é sexo, sexo das pererecas. Para atrair a perereca, o perereca passa as noites de verão entoando “cânticos” de acasalamento, que varam a madrugada. Verdadeiras serenatas anfíbias, que podem chegar a decibéis mais incomodativos que os gemidos do sexo humano.

O perereca, querendo conquistar a perereca, pode acabar com o sono de humanos e humanas, com seu cantar estridente, agudo e contundente. Conforme fundamental matéria do Fantástico, isso está acontecendo na maior metrópole do Brasil. Em pleno concreto de São Paulo o acasalamento das pererecas está impedindo o sono humano. Coisa desumana.

Revoltados com o prazer das pererecas, homens e mulheres, reclamaram para os órgãos responsáveis pela preservação do meio ambiente. A prefeitura, do PT, alega que não trata do problema da perereca e que a questão é de responsabilidade do Governo Estadual, do PSDB. O Estado diz que não criou a perereca, que, segundo biólogos, não é nativa e sim imigrante, não tendo, por tanto, responsabilidade sobre o problema, que é Federal.

E as pererecas e os pererecas, alheios aos debates políticos, continuam sua sinfonia de acasalamento, se reproduzindo ruidosamente.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Daltonismo arbitrário

A conversa mais recorrente em todas as rodas futebolísticas durante todo os campeonatos, séries A e b, do futebol brasileiro foi sobre arbitragem. Estranhamente, não se digladiou rivalidades. Não se discutiu representantes de Estados. Não se falou de...futebol.
 
Nas mesas de bar o assunto predominante foi a mão na bola ou a bola na mão. O pênatil marcado; ou deixado de ser marcado em lances absolutamente iguais. Ou quase iguais. A igualdade do diferente estava na cor da camisa. No escudo desenhado. Na arena da contenda.
 
A mesma mão na bola em um campo não era a mão em outro. As áreas foram sempre diferentes, dependendo da camisa que defendeu; ou atacou. O gramado, com suas marcas de cal absolutas, mudava as linhas, já não tão absolutas. As camisas apagavam ou acendiam as linhas num daltonismo arbitrário. Um distúrbio ótico que contagiava cinco ao mesmo tempo e no mesmo lance.
 
Os campeonatos nacionais, séries A ou B, não poderiam ter se encerrado sem o flagrante “daltonismo” arbitrário. Esses olhares disformes dos apitadores, na última rodada, foram vistos, sem “daltonismos”, por milhões de torcedores.
 
O braço do zagueiro de costas de um time vale mais que o braço do zagueiro de frente de outro time. Curiosamente, os dois braços ajudaram um só time de São Paulo. A mão proposital do centroavante não é vista; a do goleiro,vista, provoca a expulsão. Os “trança-pé” de um lado é penalidade máxima; de outro é segue o jogo.
 
O “daltonismo” arbitrário dos quintetos escolhidos pela CBF confundiu os campeonatos brasileiros A e B. Confundiu as camisas em campo com as camisas das arquibancadas. Confundiu as mãos em verdadeiras, como se usa no jargão futebolísticos,  “passadas de mãos”.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014


Crônica do tempo perdido

 

Mesmo com apenas meio século de vida, ouso discorrer sobre um pouco do meu país e vou além, atrevo-me, a começar a história, literalmente, no bico da mama. Em março de 1963. O Brasil me via pela primeira vez. Eu também achava que o via. Tempos conturbados. Estranho para um recém-nascido e para uma futura extração à fórceps. Mais ou menos assim, nos apresentamos, eu e meu país.

 

Com apenas um ano, mal completados, a política me vem com um rompimento. Março de 1964, um ano depois mim, nasce o golpe militar e começa uma ditadura. Muitos vão dizer que era perversa; outros que era necessária; há ainda os que nada dirão. A História é assim. Contada. Mas eu fazia parte dessa História.

 

Vinte anos depois, um modo de governar é questionado e não resistiu. Mas, dessa vez, não podia ser à fórceps. A nova democracia veio num parto natural e naturalmente permitido. Havia uma necessidade e até vontade que não fosse forçada. Então, depois de 20 anos, o Brasil pensou estar mudando. Mas a mudança nasceu natimorta.

 

Esperamos mais cinco anos de dura gestação para respirarmos, finalmente, uma inseminação ao modo natural. Em 1989, parecia que, finalmente, estávamos querendo pensar no futuro de um país, que apenas pensava no passado. Mas a História é mais perversa que imaginamos e mostrou que é impossível discutir o futuro apenas com os rancores do passado.

 

Outro natimordo da democracia. Mas esse, concebido de forma natural, sem tubos de ensaios coloridos. Agora vai, pensamos nós brasileiro depois do “impedimento” do primeiro presidente eleito de forma direta pós ditadura.

 

Achávamos que o Brasil tinha trilhado seu caminho, democraticamente, ao futuro. Trinta anos após a ruptura democrática, o recomeço. Vieram oito anos de recomeço, depois mais oito anos, com alternância do processo democrático. Depois mais quatro sucessivos, democraticamente.

 

Apenas nesse meio século da história da minha vida, nasci, cresci, estudei, vi e vivi numa ditadura de 1964 a 1984. Uma gestação de democracia de 1984 a 1994, com nascimentos e abortos, que pareciam insuperáveis. Só então, me veio, e para o Brasil, a nova democracia pensada de fato.

 

Nova até quando? Até assistirmos debates de dois candidatos à presidência, em pelo século XXI, em 2014, vinte anos depois, discutindo Samu, que era Sandu na ditadura, Pronatec que na ditadura era escola profissionalizante, Petrobrás, que era mote de campanha de Getúlio Vargas, em 1950, SUS, que era INAMPS.

 

Cinqüenta anos após nascer, ligo uma TV de LED, com canal a cabo HD, de alta definição, vejo ao eu alcance um mundo novo, gestado e crescido no contraponto de um debate que discute apenas meu passado.

quinta-feira, 24 de abril de 2014


Meus tique-toques

O mundo moderno não mais as entrelinhas
Desalinhou
Uma linha cheia é muito
Loooooooooooooooooooooooooooooooooonga

O mundo moderno quer contar a vida em toques
Sem retoques
Exige o ser cru, quase asséptico, vestidamente nu

O mundo moderno não conta a vida em anos
Nem em meses, nem em dias...
...desumanos

O mundo moderno cobra tudo em minutos...
...diminutos
Cada vez mais e mais e mais e mais e...
...menos

Empáfia argentina e enganação

Chiko Kuneski Existe uma piada da época em que não havia o politicamente correto que diz: “o melhor negócio do mundo é comprar um argent...