segunda-feira, 15 de junho de 2020

Vídeo game televisivo

Chiko Kuneski

Na Europa o futebol voltou. Na Alemanha, na Espanha, logo volta na Inglaterra. Mas voltou, pós pandemia, confinamento, sem terra. Não falo dos gramados, como sempre irreparáveis; sem os terráqueos. Os campeonatos nacionais europeu voltaram como uma cara de brincadeira virtual. Retornaram como um vídeo game sem controle de quem joga.
As cadeiras vazias de pessoas, sem calor, foram substituídas por holografias, projetadas para a televisão. E de um gráfico dos anos 90 em plena segunda década do século XXI. Voltou como um vídeo game retrô. Pobre. O som da torcida, imaginária, é ainda pior. Um triste metálico, melancólico do vazio.
Mas chega de falar dos arredores do novo futebol. Dentro de campo há um tom retro do jogo. As marcações são métricas, a distância segura; não com antes, sem espaço. Sobra espaço. Os jogadores estão perdidos nesse novo futebol. Depois de tanto tempo jogando com a referência do contato, do movimento rápido, do raciocínio veloz, que diferencia os especiais dos comuns, têm espaços.
Espaço sobrando, qualidade faltando. Os jogadores nesse novo futebol não sabem o que fazer com o tanto espaço para receber a bola, livre, sem combate, que se limita ao olhar do marcador, à pelo menos um metro. O toque preciso de antes se oprime ao passe burocrático. Nas alas, os laterais ficam assistindo o jogo, sem nem uma cabeça adversária entre ele e a bola. Mas não há o passe. Há tanto vazio que os meias não olham para os lados. Procuram o vertical de um atacante, normalmente mal marcado.
O espaço sobrando deixa o raciocínio faltando. O pensar dos pés está lento. Não há mais o olhar de agudez do jogo. O olhar é “balse”, contemplativo. Há espaço, logo há tempo. Esse novo futebol pós-pandêmico parece um paciente saindo de um tratamento intensivo, sem intensidade.
Sobra a nós, espectadores desse vídeo game sem controle, torcer para que os craques, sempre diferenciados, saibam o que fazer com o maior espaço. Certamente brilharão mais. Que entendam isso e joguem esse jogo retrô com a maestria do passado. O futebol do antigo presente voltou morto, dificilmente retornará no futuro. Então, que o futebol do passado recomece e se reinvente. Mesmo que no vídeo game da vida nos gramados.

domingo, 24 de novembro de 2019

Ah ! As divindades



Chiko Kuneski

Hoje, 23 de novembro de 2019, não foi um dia de Jesus. Nem de Deus. São humanos demais para brilhar no tabuleiro mágico do futebol. Os “deuses” do futebol mandam no retângulo de grama. Mandam e desmandam. Os “deuses” do futebol movem os cordéis mágicos das marionetes do espetáculo e decidem tudo ao seu humor.

Os torcedores não sabem nada deles. São meros brinquedos apaixonados. São humanos demais para sentirem a força do controle. E assim os “deuses” do futebol agiram.
A galhardia pragmática de Gallardo, competente na marcação, tecnicamente quase perfeita, saiu vencendo. Como ele mesmo pensou ter profetizado: “quem fizer o primeiro gol no jogo da decisão vence a Libertadores da América”. A primeira decisão em um único jogo, na infindável mania da América copiar os colonizadores europeus. E foi assim que tudo correu. River saiu na frente.

Mas o argentino, na sua empáfia portenha, esqueceu que acima de João de Deus e Jorge Jesus, estavam os “deuses” do futebol. Os deuses não gostam de galhardias. Não gostam. Não toleram. Permitiram que se vangloriasse até os estertores da brincadeira deles.

E, seguindo sua diversão de ver o melhor futebol, as punem da maneira mais cruel. Para eles o espetáculo está acima dos homens, querem se divertir. Não podia ser diferente nesse embate terreno, com nomes divinos e egos dos deuses. No futebol o ego só cabe ao ego dos “deuses” do futebol. A bola pune quando assim querem.

Duas bolas, no final. O êxtase e a tragédia sempre se apresentam no final. Um jogo pragmático, perfeito, impecável de Gallardo foi punido pelo gol. Do jogador que os apaixonados pelo futebol batizaram com segundo nome de “Gol”. Um singelo Gabi, diminutivo de Gabriel, para um expansivo “Gol”.

Os “deuses” do futebol gostam do espetáculo. Movem suas cordas para a diversão e, normalmente, premiam o futebol que mais os encanta. Sabem que assim cativam os meros humanos. Não gostam das divindades meramente humanas. O preposto dos “dos deuses” do futebol é o Gol.



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Desmoronando a crença



Chiko Kuneski

Sempre comunguei com o enunciado que um homem dever ter pelos menos uma fé absoluta e fazer dela sua religião particular. O meu ritual místico é o futebol. Encarna-se no manto sagrado rubro-negro. Meu time em campo é mais que futebol é adoração é veneração é uma religião pagã de ídolos passageiros.

Um padre jesuíta me disse certa vez que todo homem tem direito a uma paixão imutável. Acho que entendeu que a minha tem nome: Flamengo. Assistir o rubro-negro é mais que ver futebol; é adorar os 90 minutos do “culto” mágico de sair de uma realidade para uma fantasia absoluta de plenitude ou frustração. Professar a fé por um time é ir do nirvana ao inferno, e isso pode acontecer em meros segundos dentro do atemporal cronômetro do torcedor.

O inferno é bem mais fácil nesse fascínio místico. Acho mesmo que até mais comum e lógico. Mas não existe lógica na paixão.

E o inferno parece se apoderar mais rapidamente quando há um motivo. A cada dor se espera uma analgesia. Algo que suprima os sintomas. Traga meros momentos de relaxamento. O futebol serve também para isso. O futebol com paixão é uma morfina da alma ministrada via adrenalina. Aclama, relaxa, tira a dor, sossega.

Respirei isso o dia todo. A morfina da “alma” no Fla Flu. A emoção pelas homenagens de dez adolescentes que morreram por um sonho, talvez o mesmo sonho que o meu da paixão do futebol e de um clube escolhido na pureza de criança, aumentou a adrenalina. Pilhei. Vesti o manto. Tomei no cálice. Endorfinei.

Mas o inferno é mais fácil que o nirvana. Decepção. Desilusão. Paixão desconexa. Dor. Novamente a dor. Tudo provocado por um time sem paixão. Sem honra do manto. Sem respeito aos que deram a vida pela religião de torcer pelo Flamengo. Covardes, acovardados. Midiaticos no sofrimento. Mentirosos. Enganadores dos enganados.

Um time sem alma. Sem espírito de luta. Sem vontade. Sem rumo. Sem comandante. Um Flamengo que me balança a paixão de criança. Meramente o um grupo de corpos falsamente vestindo um manto de que não foram dignos. Um embuste.

Voltei a chorar pelos dez meninos que deram corpo e alma por sua paixão. Os homens em campo praguejei.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Diarreia cibernética



Chiko Kuneski

Às vezes tenho toda a vontade de vociferar. Vá à merda, modernidade. Mas seria cruel demais com a merda. Ela nos sai limpando, expelindo o mal, expurgando o “gurgitar” (licença poética da antítese). Sai mais pura que a putrefeita enfadonha que nos empurram goela a baixo.

A modernidade é perfeita. Até seu primeiro “bug”. Primeiro, segundo, terceiro, primeiro que gerou o segundo que tinha que ter sido resolvido no primeiro e que gerou o terceiro. Nesse conjunto numerário vem um quarto. O cidadão, moderno, que tem que entender que a modernidade é um conjunto de problemas; não de soluções.

Mas você não pode ter um “bug”. Você não tem o direito de ser um besouro no sistema. Não nesse sistema. Você é um mero Bit, quando muito um Bite, para poucos. Só o sistema tem o direito de dar pane. Você é humano. Entenda. Engula. Vomite. Cague.

Está na hora de cagarmos para a modernidade tecnológica. Ou ela vai continuar cagando sobre nós as nossas próprias fezes.


segunda-feira, 16 de julho de 2018

O VAR humano



“Nada que a tecnológica e fria lente captura não foi visto antes pelo olhar do Homem”.

Chiko Kuneski

Acabou...acabou a catarse. A Copa é catártica. É a fantasia máxima. A verdadeira personificação do bem e do mal. Do céu e inferno. Que elege divindades terrenas, feito os deuses do Olimpo a escolher seus favoritos. Somente na Copa do Mundo somos milhões de deuses. É a magia que faz torcer até pelo desconhecido. Mas, como toda catarse, tem prazo de validade.

Especialmente para os que já a frequentaram por décadas. Jogadores, técnicos e torcedores. A Copa é como uma cópula. Orgástica. Um conjunto de corpos suando. Vem num crescente. Começa no exagero e afunila para o mágico. Mas acaba num súbito inexplicável. Bons para uns; satisfatório para outros. Mas é uma cópula universal.

A Copa da Rússia foi a primeira realmente do século XXI. Tecnológica. Sobre humana. O frio olhar angulado das câmeras decidiu jogos, resultados, carreiras e vidas. P       ela primeira vez nós, os apitadores de televisão, nos sentimos juízes do jogo. Não decidimos, até porque seria impossível uma decisão unânime de milhões. Mas vimos o mesmo que o árbitro viu. Julgamos. Absolvemos e condenamos.

Três letras. VAR (Video Assistant Referee), em inglês, ou árbitro de vídeo, em bom português, determinou destinos na Copa. Uns detestaram. Outros aprovaram. Como qualquer árbitro foi aplaudido quando a favor e criticado quanto contra. É do torcedor. Contestar até o incontestável. A paixão é cega e, com diz Mauro Pandolfi, “futebol é um jogo de olhares”.

Difícil, ou quase impossível, ter olhares em catarse. Só há paixão. O VAR, tão temido por muitos, muitos aos quais me incluía, por  poder destruir a grande magia da ludicidade da dúvida do futebol. Criou uma nova tendência. A do erro da imagem. O futebol é tão mágico que nem o frio olhar das lentes arrefece a paixão.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Lágrimas de crocodilo.

Chiko Kuneski

A dor. Diferente do ardor. Há a dor. Física. Emocional. Química. Passional. Fingida. É subjetiva. Imensurável. É absolutamente individual. Nem mesmo a medicina mais moderna detecta seu grau. A dor é de dolorida a teatral.

Teatro. Que tablado mais mágico para encenação que o campo de futebol. Um losango perfeito para o movimento, pulos, saltos, rolagens, olhares. Quando o mundo põe câmeras sobre o tablado o teatro é global. Os gestos individuais coletivizam.  A dor faz-se encenada.

Que expressão há para a dor se não o choro. É atávico. A criança chora por qualquer dor, até a falta de atenção. O choro é a melhor forma de chamar a atenção. Mesmo que um choro fingido. Teatral.


Mas não existe choro sem lágrima. É falso. Enganoso. Fingido. Assim foi o choro de Neymar Jr.  Contorcido. Teatral no tablado de grama globalizado. Marqueteiro. Apenas secas lágrimas de fingimento para o olhar das câmeras. Lágrimas de crocodilo.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O iludido


Chiko Kuneski
“Cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é”.
Caetano Veloso
A estrofe é a máscara do futebol. Da paixão. Do sofrimento. Da raiva. Da euforia. Somente o apaixonado torcedor entende essa máxima. A dor e a delícia confundem-se a cada jogo. A cada derrota devastadora que o faz um naufrágio iminente; com o bote salva-vidas da vitória seguinte. No jogo essa dicotomia acontece a cada minuto, ou até segundo. Um gol adversário dói; um gol do time vira euforia.
A magia do futebol está na ilusão. O torcedor nega a realidade cruel do seu dia a dia quando volatizasse em alma de camisa. Transforma-se. Transmuta-se. Deixa de ser terreno e procura a delícia celestial da euforia coletiva do gol. Da vitória. Da conquista.
Mas no caminho sempre tem a dor, o sofrimento do derrotado, do gol adverso nos últimos décimos de segundo que devolve a dura realidade. Como um grande adeus à ilusão.  O apaixonado torcedor nunca dá adeus. Volta a vestir a alma etérea da camisa e a ilusão.
Os mesmos décimos de segundo que arraigaram a realidade da dor podem se transformar na etérea delícia de uma noite insone pela adrenalina eufórica de um título. O torcedor é a pura expressão humana da paixão irracional e inexplicável de gostar da dor e da delícia. Da ilusão.

Empáfia argentina e enganação

Chiko Kuneski Existe uma piada da época em que não havia o politicamente correto que diz: “o melhor negócio do mundo é comprar um argent...