segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Lágrimas de crocodilo.

Chiko Kuneski

A dor. Diferente do ardor. Há a dor. Física. Emocional. Química. Passional. Fingida. É subjetiva. Imensurável. É absolutamente individual. Nem mesmo a medicina mais moderna detecta seu grau. A dor é de dolorida a teatral.

Teatro. Que tablado mais mágico para encenação que o campo de futebol. Um losango perfeito para o movimento, pulos, saltos, rolagens, olhares. Quando o mundo põe câmeras sobre o tablado o teatro é global. Os gestos individuais coletivizam.  A dor faz-se encenada.

Que expressão há para a dor se não o choro. É atávico. A criança chora por qualquer dor, até a falta de atenção. O choro é a melhor forma de chamar a atenção. Mesmo que um choro fingido. Teatral.


Mas não existe choro sem lágrima. É falso. Enganoso. Fingido. Assim foi o choro de Neymar Jr.  Contorcido. Teatral no tablado de grama globalizado. Marqueteiro. Apenas secas lágrimas de fingimento para o olhar das câmeras. Lágrimas de crocodilo.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O iludido


Chiko Kuneski
“Cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é”.
Caetano Veloso
A estrofe é a máscara do futebol. Da paixão. Do sofrimento. Da raiva. Da euforia. Somente o apaixonado torcedor entende essa máxima. A dor e a delícia confundem-se a cada jogo. A cada derrota devastadora que o faz um naufrágio iminente; com o bote salva-vidas da vitória seguinte. No jogo essa dicotomia acontece a cada minuto, ou até segundo. Um gol adversário dói; um gol do time vira euforia.
A magia do futebol está na ilusão. O torcedor nega a realidade cruel do seu dia a dia quando volatizasse em alma de camisa. Transforma-se. Transmuta-se. Deixa de ser terreno e procura a delícia celestial da euforia coletiva do gol. Da vitória. Da conquista.
Mas no caminho sempre tem a dor, o sofrimento do derrotado, do gol adverso nos últimos décimos de segundo que devolve a dura realidade. Como um grande adeus à ilusão.  O apaixonado torcedor nunca dá adeus. Volta a vestir a alma etérea da camisa e a ilusão.
Os mesmos décimos de segundo que arraigaram a realidade da dor podem se transformar na etérea delícia de uma noite insone pela adrenalina eufórica de um título. O torcedor é a pura expressão humana da paixão irracional e inexplicável de gostar da dor e da delícia. Da ilusão.

domingo, 3 de setembro de 2017

Amantes


A lua namoradeira
Mostra escondendo

Atrás do sol descendo

Rezando feito freira
Pela transparência

Da límpida janela
Para flertar-me

Através dela



Platonicamente

domingo, 11 de junho de 2017

Brasileiro


Chutei o balde
 
Vazio
 
Rolou e rolou
Mas nada aconteceu
A não ser o barulho
Que sabia ser finito
Levantei o balde
 
Vazio
 
Aprumei na base
E continuei como o balde

Vazio

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Cyber solidão


 
As redes sociais são frias
Vazias

Plenas na sua incipiência

 


Meros espelhos de sala de espelhos

Velhos
De um circo universal de horrores




As redes sociais são vazias

Na reprodução do óbvio

Na sensatez do insensato
No inexato
Dos horrores da sala de espelhos


As redes sociais são vadias
Espelhadas no aço

Frias
Dicotomicamente cheias

Individualmente,
Mas... vazias

quinta-feira, 23 de junho de 2016

00:00:00


 
 
 
 

Nos zeramos a cada zero
Nossas antigas formas ficam

Segundo a segundo,
Cada virada, mais disformes

 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

domingo, 5 de junho de 2016

Nossos heróis

Cada vez que morre um famoso que marcou vidas; nasce um ídolo, um herói de carne e osso. Um mito materializado na fantasia de menino ou na lembrança de adulto. Vivemos dos mitos. Dos deuses criados. Dos heróis. Foi o dia de Muhammad Ali. O golpeador do convencional. Transgressor. Dançarino. Malhador a remoldar o retilíneo do duro vigor dos adversários.

Meu primeiro e grande herói tem nome de um deus grego: Dionísio, o deus agricultor das uvas e do vinho, mas também um representante não convencional da sociedade , do rompimento poder.  Na mitologia grega, o único deus filho de uma mortal. Até os deuses morrem. Os heróis são imortais.
Comecei falando de um ídolo do tubo, mas prefiro continuar com um herói que abraçava. Meu pai. Sem superpoderes, sem magia, sem ser guerreiro, mas com a maior virtude humana: festivo. Somente os festivos são transgressores. O ranço leva a mesmice. Ao comum. O ídolo midiático e meu herói palpável tinham isso em comum.
Festivo talvez devesse ser o maior adjetivo do herói terreno. Alegre. Honesto. Sensível. Pacífico, amigo e respeitador. Mesmo quando golpeava o ferro em brasa para moldar as formas.
Meu grande herói era apenas um metalúrgico. Um construtor de instrumentos que construíam sonhos. Desejos. Erguiam mundos. Um inventivo do duro metal retilíneo. Um idealizador tridimensional do plano. Simples, mas com o conceito do mais requintado escultor. Um moldador. Forjava a forma. Construía o forte.
Começou carregando-me nos ombros num momento mágico do menino apaixonado pelo futebol na conquista do tri, 1970. Nos ombros por não poder andar. Fez-me voar. Depois deu-me muletas, asas de aço construídas de sua curiosidade e seu conceitos de deus humano e de homem metalúrgico. Forjador. Deu-me a sabedoria conselheira. A alegria genética festiva, herdada pelo nome de um deus grego.
 
Foto do martelo artesanal me presenteado por meu pai Dionísio.
 

sábado, 28 de maio de 2016

O Jazz da bola

A nota solta no ar. Uma nota sonora. Outras notas. Como Jazz o som da bola. Largada no vazio. Despretensiosa.  Sobe. Voa. Escorrega. Contraria a gravidade. Aguda. Média. Grave. Rotativa. Translativa num eixo vertical. Uma nota.

O que encanta é o momento. O movimento. O som feito do silêncio. Da espera. Da angustia. Da nova nota. Que sempre vem. Chuá. A resposta sonora das redes. As redes gostam de tocar com as bolas. São jazzísticas. Harmônicas.
Ficam esperando o momento exato de compor a magia sonora. Da percussão do toque. Grave. Do roçar sibilado no movimento contínuo. Do agudo do lance. Do “background” da torcida extasiada pelos sons. Pelas junções.
Assim são as bolas. Adoradoras dos sopros geniais. Da criatividade. Da essência do movimento, calmo, sensual, fugaz ou visceral. As bolas não gostam do mesmo, do lateral, do esmo. São agudas como o bom jazz. Inquietas e inquietantes.

Lindo ver uma bola livre, no seu próprio giro de emoção. Uma bola solta pela imaginação da criança, que a adotou como companheira, do adolescente que se imaginou crescendo com ela, como companheira, do adulto, ainda com o gosto de criança. Vivendo com o sonho da companheira.
A bola sempre encantadora. Mágica. Imitação do globo terrestre. Uma nota solta e etérea, no espaço e no tempo. Mundialmente Universal.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Experiência


Mandaram-me encorpar
Encorpei
Mandaram-me crescer
Cresci
Mandaram-me aprender
Aprendi
Pedi para me ir
Mandaram-me ficar
Desobedeci
Já me tinha aprendido