sábado, 3 de outubro de 2020

 

Matemática do menos

 

Sinto-me velho como o século

Nesse XXI de dezenove

Desse tempo que não se move

Parado, parando, estático, que paralisa...

Até o futuro...

Como maligna máquina atemporal

Retrocede, retrocedendo, volta em volta

Joga-nos nesse escuro espiral

No seu dextrogirar de mola solta.


Ck 4/10/20

 

A Tinteiro e a Bic

 

Recentemente o PR Jair Messias Bolsonaro, uso o nome completo para identificar e em respeito ao cargo que ocupa o “enfaixado”, assinou o decreto n 10.502, que cria a nova “política nacional para a educação especial”. Ao mais leigo pode parecer um avanço para dar educação às pessoas com deficiência ou superdotadas, mas os leigos precisam aprender história. Não gosto de me usar como exemplo, mas às vezes serve como um desenho para os que não sabem ler os símbolos das letras.

Nasci com deficiência física em 1963 e, aos sete, já no governo militar, minha mãe tentou me matricular na escola pública regular, como uma criança comum. Mas era olhado de forma incomum. A inscrição foi nega. Minha mãe não aceitou e recorreu. Brigou. Lutou e me matriculou. Perdi nessa batalha meu primeiro ano de vida escolar, mas a resposta ao preconceito é a crítica ferrenha e a volta por cima com o exemplo de sucesso.

Fiz todo o primeiro grau numa escola estadual. Junto com todas as crianças da minha idade e participando de tudo que a escola possibilitava. Acho mesmo que era o único “especial”.  A teimosia de minha mãe fez o que tinha que ser feito: inclusão social pela educação. Segui em escola regular no segundo grau e, pelo vestibular, cursei Jornalismo na UFSC. Resumo da ópera: transformei-me num cidadão pela inclusão da educação. Como qualquer um estudei, aprendi, trabalhei, paguei impostos. Vivi a rotina da vida.  Nada de espetacular. Apenas um recorte do que devia ser algo comum, mas que começou de forma bem singular.

Mas o que minha história particular tem a ver com o decreto governamental. Tudo. A nova regulamentação federal estimula a criação de salas especiais para portadores de deficiência e superdotados. É a criação de uma politica educacional exclusiva e não inclusiva. É uma criação de guetos de ensino “especiais”. Uma espécie de campo de concentração escolar para deficientes.

A lógica é simples e até matemática. Se a escola, pública ou particular, é incentivada a criar salas especiais, não inclusivas, porque ter profissionais especializados para as salas comuns? Para que ter mais trabalho didático só para que a criança com deficiência faça tudo que as “normais” (ai me permito um SIC de raciocínio rasteiro) fazem? Mais fácil colocar os “especiais” nos currais com seus “iguais”.

Incentiva as escolas, públicas e particulares, a terem salas segregacionistas. Cria “guetos” para a diferença, com a falsa desculpa de assim estar possibilitando aceso à educação. A Bic do mandatário risca toda a luta por inclusão na educação regular travada globalmente desde 1981, quando o tema era o centro das discussões do Ano Internacional de Pessoa Deficiente.

Mas o que a Bic tem com a caneta Tinteiro. Uma simples analogia a política segregacionista praticada pelo nazismo alemão. Novamente vemos a tentativa da criação de uma raça superior e pura. Da segregação, seja racial, de gênero, de opção sexual e agora por nos cunharem de “especiais”, abaixo ou acima, no caso das crianças superdotadas. A caneta deixou de ser tinteiro para virar esferográfica, mas a segregação e a política de dominar pelo doutrinar pela separação e incentivar castas superiores continua a mesma.

 

Chiko Kuneski 3/10/20

https://brasil.estadao.com.br/blogs/vencer-limites/especialistas-em-inclusao-escolar-reprovam-nova-politica-de-educacao-especial-e-pedem-revogacao-de-decreto/?fbclid=IwAR2_DZP6VjP11kTta6wIt1cPFhcs-QdoTJbaDMFhcOpP0ph0Irc_OE3V4Uk

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