domingo, 20 de julho de 2008

Deu na trave




Todo dia, antes de começar o treinamento, o goleiro alisava a trave. Como o cavaleiro acariciava seu cavalo, conversava com quem poderia ser sua glória ou seu algoz. Sabia que dependia dela, que marcava sua vida de goleiro em passos, metros, centímetros definitivos. Não seria um goleiro sem sua trave. Melhor que confiasse nela.

Era sempre seu ponto de referência. Sua mira para o golpe de vista, como gostam de dizer os locutores e comentaristas esportivos. Como se golpe não fosse contra si próprio. Diriam melhor se chamassem os três “paus” da trave de referência. O goleiro sabia disso. Só goleiro. Na solidão dos extremos do campo. Como as traves.

Quantas vezes ela o tirou de apuros em jogos importantes, sendo a extensão da ponta dos dedos a impedir a consagração do artilheiro. Como ele, mais lembrada pelo desalento adversário, do que por alegria dos torcedores do time “bafejado pela sorte”. O torcedor vibra com a trave, sacudida pela explosão da bola, mas faz questão de esquecer o lance, assim que acaba.

A bola na trave é o misto do “huuuu” de decepção; com “huuuu” de alívio. Não altera o placar, mas altera a relação amorosa do goleiro com a trave. Como uma amante. Defende o amado. Vibra sonora a chamar sua atenção; ou, traiçoeira, empurra a bola para o gol. O goleiro sabia disso. Antes de começar o jogo, conversava com ela. Mimava. A fazia gostar dele. Mesmo sendo duas, dividia-se.

No jogo mais importante de sua vida, o que valia o grande campeonato, o goleiro estava nervoso. Tenso demais até para falar com a trave. Só pensava nele. Na responsabilidade. No título da carreira. No primeiro tempo a bola no travessão salvou todo o time, mas ele, focado, não acariciou, agradecido, a trave. No segundo tempo, a trave, amante do goleiro, deixou a bola explodir ao seu encontro e, vingativa, fez rebater de encontro às suas costas. De joelhos, entre as traves, o goleiro escutou o estufar da rede encontrando a bola.

Um comentário:

Paulo Scarduelli disse...

Adorei, Chiko.
Me lembrou da Copa de 1986 e o azarado goleiro Carlos.
Parabéns, mais uma vez!!!
Scarduelli