quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Deivid, o ladrão de sonhos

Eram apenas duas vidas. Distintas. A bola e a rede. Vidas cheias; vidas vazias. A bola de ar, de inspiração, do ataque. De fazer cantar em uníssono a torcida com o surdo som esfuziante de emprenhar a rede. Encher. Esticar. Estufar. Dar vida a sua insignificância estática. A rede quieta, mas inquieta no desejo de ser acarinhada pela bola, no escorregar macio do êxtase da torcida em delírio de um único grito:

- Golllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll.

Eram apenas duas vidas. Distintas. Uma pedindo. Outra implorando. Subservientes aos caprichos dos homens. Dos deuses. Do imponderável do futebol. Duas vidas unidas pelo desejo único, acabado, perfeito, do encontro. Do gozo coletivo. A catarse que só as duas juntas poderiam provocar:

- Gollllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll.

Eram apenas duas vidas. Distintas. Duas desconhecidas. Duas esquecidas pelo desleixo. Pelo desprezo. Pela inexatidão da falta do zelo. Pela preguiça. De olha-lhas, em um só átimo, precioso para entender a importância de sua união. Da bola estufando a rede. Da rede abraçando a bola. Da alegria de gemido coletivo de:

- Gollllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll.

Inacreditavelmente, para as duas vidas. Duras vidas. Deivid, o centro-avante, suprimiu da bola e da rede o prazer único de darem alegria. Acarinhando-se, malemolentes, ao cantar eufórico da torcida. Preferiu a trave. Dura como sua “perna de pau”.


Vejam o desespero da bola e da rede

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