sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Exumando Exu

O bêbado já fazia parte do mobiliário do bar, sempre sentado na mesma cadeira de costas para a parede dos fundos e de frente para uma das duas entradas do casarão. Nunca se dá as costas para a entrada de um bar, ensinava quando mexiam com sua arraigada posição diária. Com o olhar perdido na porta, que dava vista privilegiada para uma igreja evangélica do outro lado da rua, passava as tardes embalado pelo copo de cachaça amarela.

O primeiro gole era tomado como um remédio que aplacava a tremedeira abstêmia do início do dia. Depois, sorvia a bebida com um prazer que às vezes dava gosto observar. Claro que o corpo já precisava da quantidade diária de álcool, mas havia um prazer confesso em beber a água ardente. Repetia sempre o mesmo ritual. Copo a copo. Pegava cheio, levantava. Ficava alguns segundos olhando com o copo erguido para a prateleira das garrafas, como a proferir uma reza baixa, e tomava o primeiro gole.

Sempre ao final da tarde escolhia alguém do bar, que podia ser outro bêbado, o atendente ou até mesmo o proprietário, olhava fixamente para a vitima através do copo cheio de pinga e, depois de um grande gole, maior que os tomados normalmente, começava a adivinhar o passado ou o futuro do eleito. “Recebo o santo”, dizia calmamente, “tenho o poder da premonição”. Como uma autêntica cigana começava pelo passado, falando coisas que se encaixariam dentro de qualquer vida que freqüentava o bar. Alguns se deixavam levar e confirmavam a adivinhação. Estavam presos na armadilha.

Aproveitava-se do bom ouvido para revelar segredos que qualquer pessoa mais a atenta ouviria nas conversas alcoolizadas das mesas. Mas as palavras eram bem postas, firmes. Sempre assertivas para hipnotizar o seu ouvinte, já maravilhado com o que ele sabia do passado. Alguns se encantavam com as palavras trôpegas da cachaça que contavam coisas sabidas. Quando sentia o convencimento, passava a falar do futuro. Sempre nebuloso e nada claro. Vago o suficiente para ser possível.

Às vezes parava de falar. Olhava fixamente para a igreja da outra esquina, levantava o copo e soltava uma previsão bombástica. Meneava ligeiramente a cabeça, olhava para a prateleira onde sobressaia uma garrafa com rótulo preto e três grandes letras vermelhas: “EXU”. Ria alto, olhava para o copo e calava.

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